YOGA, A EDUCAÇÃO DA MENTE
- Marcelo Augusti
- 14 de dez. de 2024
- 8 min de leitura
Atualizado: 17 de dez. de 2024

A principal função do professor é aprender (Pedro Demo)
A educação é o solo fértil do saber. Ela é tudo aquilo que é transformado da natureza pelo esforço do ser humano. O próprio ser humano é a matéria-prima básica da educação.
A educação é tudo aquilo que se encontra disponível e criado em cada cultura, tudo o que é significativo, individualmente ou coletivamente, para a construção de algo melhor.
Trata-se do conhecimento que se adquire com a experiência pessoal, é tudo o que se aprende com e se ensina para o mundo e na convivência com o outro.
A educação é um processo não apenas de transmissão do saber, que se faz de modo informal ou institucionalizado, porém, um aprender a se relacionar, espontaneamente, com a natureza, o mundo e consigo mesmo.
Em sentido amplo, educação é tudo aquilo que pode ser feito para desenvolver o ser humano e, no sentido estrito, é a instrução técnica para o desenvolvimento de competências e habilidades específicas.
Se a educação é o solo fértil do saber, podemos dizer que o yoga é a semente desse saber. Plantar a semente do yoga no solo fértil da educação é a certeza do florescimento do amor, da paz e da felicidade em cada indivíduo.
O yoga se torna um processo educativo quando se estabelece uma relação na qual, pelo menos um dos envolvidos (o professor, o guru), procura promover no outro (o aluno, o adepto), o crescimento interior e a maturidade espiritual.
Yoga e educação configuram-se, portanto, a partir de uma relação íntima (no sentido de permitir-se uma profunda e respeitosa confiança recíproca), de parceria entre aquele que ensina e aquele que aprende.
Temos, então, que a relação yoga/educação se desenvolve por um processo em permanente reconstrução, onde os avanços no conhecimento do aluno exigirão do professor um constante aprendizado. Estabelece-se, assim uma educação pelo yoga.
Mas o que significa esta educação pelo yoga? O que podemos definir como educação pelo yoga é o processo de ensino e aprendizagem da autorregulação das emoções. Esta autorregulação emocional é entendida como:
“O processo pelo qual as pessoas procuram desenvolver a habilidade de interferir em: (a) quais emoções elas sentem e em quais ocasiões são sentidas; e (b) como elas experimentam e expressam as suas emoções” (Ramon Cosenza, Neurociência e Mindfulness)
A palavra ‘emoção’ provém do latim emovere, que significa “mover de dentro para fora”. Trata-se de um modo de comunicarmos ao outro aquilo que se passa em nosso íntimo. As emoções integram o mecanismo de regulação da sobrevivência, e como se constituem em adaptações do organismo frente às exigências do ambiente, são passíveis de aprendizagem.
A emoção se caracteriza por um estado afetivo intenso, de breve duração, originada de estímulos significativos, externos ou internos, e que provoca reações imediatas no indivíduo, conscientes ou inconscientes, diante da circunstância ao qual está exposto.
O objetivo da autorregulação das emoções é reduzir ou interromper as experiências emocionais que provocam reações explosivas que prejudicam o indivíduo ou ao próximo, e iniciar ou impulsionar comportamentos que fortaleçam a gratidão, o otimismo, a resiliência, a tranquilidade, a bondade.
Aprender a regular as emoções, portanto, é de fundamental importância, pois elas alteram o nosso comportamento, para pior ou melhor. Quando uma emoção emerge, não há tempo para avaliar racionalmente a situação, pois o mecanismo estímulo x resposta é muito rápido: as emoções nos incitam à ação.
Há diversos tipos de emoção: as básicas, que são a alegria, a tristeza, o medo, a surpresa, o nojo e a raiva; e as complexas, que envolvem fatores socioculturais, como a vergonha, o ciúme, a admiração, a ansiedade e a culpa.
Por impactarem o nosso estado mental, as emoções afetam a nossa vida, seja no sentido de uma evolução ou, contrariamente, uma involução. O estado mental se refere às características que moldam a mente do indivíduo, e que determinam o modo como ele pensa, sente, percebe e processa as informações do mundo exterior e de seu próprio mundo interior.
Por ser facilmente influenciado por diversos fatores (ambiente, relacionamentos, emoções, pensamentos, memória), o estado mental é suscetível de constantes alterações, caracterizando-se, na maioria das pessoas, como disperso, abalável, inconsistente, volúvel.
O estado mental é um aspecto fundamental da “saúde da mente”, pois, como já dito, ele influencia diretamente em nosso comportamento social e bem-estar físico e psíquico. É o que denominamos por “mente”, que se constitui no objeto principal de intervenção educativa por parte do professor de yoga.
Mas o que é a mente? A mente não é uma entidade, ou seja, ela não tem uma existência distinta e independente; ela é um fenômeno psíquico (relativo ao espírito), porém, resultante dos processos cerebrais (próprios da matéria). A mente, portanto, é uma formação remanescente e impermanente da cognição.
A cognição é a função cerebral responsável pelos processos de aprendizagem, tanto racional quanto emocional. Pensamento, sentimento, percepção e memória são aspectos básicos das funções da cognição e, por extensão, da formação da mente; eles são “experiências mentais”, cujos contornos e conteúdos são gerados a partir das emoções.
É importante sabermos que as emoções são suscitadas pelas sensações corporais. O corpo é o palco das emoções. O corpo “pensa e sente”. Por isso, as alterações corporais, decorrentes das sensações dos sentidos e que suscitam as experiências mentais, são fundamentais para que tenhamos consciência da mente.
A mente, assim, surge a partir das sensações corporais que geram um estado psíquico peculiar – o estado emocional – originado pelas respostas cerebrais às sensações do corpo; são essas respostas que nos orientam para a garantia de nossa sobrevivência.
Um estado emocional é uma disposição para a ação. A maioria de nossas ações são automatizadas – pois se baseiam nas percepções mentais arquivadas na memória. A memória é constituída de pensamentos e sentimentos. Pensar e sentir (razão e sensibilidade), são modos de interpretar as emoções, tornando-as acessíveis à nossa compreensão.
Logo, não se pode falar de um corpo e de uma mente como elementos constitutivos distintos, pois toda atividade mental, literalmente, se ‘corporifica’, assim como toda sensação corporal, se ‘mentaliza’. É, pois, quando esta atividade mental se torna consciente, que a denominamos de “mente”.
Na educação pelo yoga, a intervenção educativa é uma interferência intencional, de responsabilidade do professor ou guru. O objetivo é auxiliar os alunos a superarem as dificuldades no trato com a mente; o que se espera é que os alunos alcancem a proficiência para lidar com os próprios estados emocionais.
Esta intervenção educativa se realiza por meio de métodos e técnicas próprios do yoga. Os métodos e técnicas do yoga funcionam como estratégias de aprendizagem para o autodomínio da mente e da autorregulação emocional.
Educar pelo yoga tem como condição essencial que aquele que ensina yoga cultive, em si mesmo, uma mente de aprendiz, ou seja, que esteja sempre aberto a aprender, e engajado continuamente em seu próprio crescimento interior; e que faça do estudo, da reflexão, da simplicidade, da humildade, da generosidade e da meditação os princípios que norteiam suas práticas e atitudes cotidianas.
Na educação que tem por base os ensinamentos do yoga, a percepção que temos é de que sempre estamos aprendendo a ser e viver. O verbo aprender, no gerúndio, indica que estamos no meio do processo de aprendizagem, em plena “marcha da vida”. É o caminho que se faz e se refaz a cada passo.
Quando os ensinamentos do yoga fazem sentido, isso provoca um entusiasmo, um “sorriso interior”, que indica que estou compreendendo, embora haja ainda muito a compreender. É este entusiasmo que não nos deixa deter os passos, bradando continuamente “avante”, nos alertando que ainda não chegamos ao final da jornada.
Esse “ainda muito a compreender”, portanto, é o estímulo que nos leva a buscar mais, a ampliar as referências, a nos aprofundar nos ensinamentos. Pois, então, teremos aprendido o ensinamento mais básico de qualquer processo educativo: aprender é para a vida toda.
Mas como saber se estou aprendendo? Aprender significa mudança; a mudança é o parâmetro de toda e qualquer aprendizagem. Quando o ensinamento é assimilado, vivido e se transforma em mudança relevante em minha vida, expresso por meio de atitudes genuínas perante o mundo, posso ter a certeza de que aprendi o que foi ensinado.
A mudança, portanto, é o parâmetro fiel da aprendizagem. E isto é muito simples de verificar: por exemplo, se não sei nadar e, após fazer aulas de natação, estou a nadar, então, aprendi a nadar.
A mudança do estado original (não sabia nadar) para o estado presente (agora sei nadar), após a passagem pelo processo educativo, é a marca da aprendizagem. Logo, não se pode falar em educação sem mudança; e não se pode falar em yoga sem transformação.
Por meio da educação adquirimos conhecimentos para mudarmos os nossos hábitos; com o yoga, adquirimos a sabedoria para transformar o conhecimento no “novo valioso”. Esse “novo valioso” é o crescimento interior, que nada mais é do que o florescimento da espiritualidade, esse algo de inestimável valor que se encontra em estado latente em cada um de nós.
Porém, para que a espiritualidade floresça e frutifique, um estado mental de tranquilidade e harmonia é imprescindível. E para alcançarmos esta condição deste tranquilo permanecer, necessário se faz o aprendizado do domínio da mente e da autorregulação emocional.
A expressão maior do aprendizado da autorregulação emocional e o domínio da mente é a serenidade. A serenidade gera equilíbrio e harmonia. Equanimidade e discernimento surgem a partir da serenidade.
A serenidade é o estado mental mais elevado que podemos alcançar enquanto seres humanos. Ela é o nosso ‘refúgio interno’, de onde podemos olhar para o mundo com uma perspectiva mais aberta, mais inclusiva, com mais aceitação, menos tensão e livre do egoísmo.
A educação pelo yoga nos ensina a adquirir a percepção correta de que os estados emocionais são transitórios e que, do modo que surgem, desaparecem por si mesmos, quando não são intensificados ou prolongados pelos pensamentos e sentimentos.
É este aprendizado que contribui para reduzirmos ou até eliminarmos as influências provocadas pelas tensões emocionais, que ‘disparam gatilhos’ que desencadeiam reações intempestivas e fortalecem os comportamentos padronizados pela memória.
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Agora, uma pausa. Durante três minutos, em qualquer hora do dia, sem um local específico, em pé ou sentado, feche os olhos e dirija a consciência para o seu ‘refúgio interior’. Respire naturalmente, não tente controlar a respiração.
Observe, sem julgar ou se fixar, os pensamentos que passam pela mente; mantenha-se numa atitude aberta, de simples aceitação do que se passa, e perceba como esse evento mental, o pensamento, é transitório, surge e desaparece, quando permitimos o seu fluxo natural.
Esteja consciente dos sentimentos que podem emergir; perceba a presença das emoções, agradáveis ou não; perceba as sensações corporais, sem em inferir em nada; apenas reconheça os sentimentos, esteja consciente das emoções e sensações, sem se identificar com nada.
Por três minutos apenas, permaneça em seu ‘refúgio interior’: é nele que se encontra a serenidade.
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O yoga é um processo educativo por excelência; é uma experiência humana significativa, de transformação da vida, de uma mudança “do interior para o exterior”.
Educação e yoga são atividades estreitamente ligadas e que fazem parte das ações rotineiras, tanto de quem aprende quanto de quem ensina.
O que se aprende com a educação, se apreende com o yoga. Que a educação pelo yoga não seja algo inalcançável ou privilégio de poucos.
Hari Om Tat Sat.
Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e- ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação (Carlos Eduardo Brandão)
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